Pra lá de Marrakesh

Por Felipe Gasparete*

Lendo o noticiário semanal, deparei com a notícia de que o Marrocos não vai mais sediar a Copa Africana de Nações devido ao surto de ebola que está ocorrendo na África Ocidental. Deixando um pouco de lado a questão médica, acabei lembrando de uma viagem que fiz ao país em 2011, e fiquei revivendo essa grande experiência.

Quando morava no Porto, em Portugal, durante meu intercâmbio, uma amiga estava passando férias na cidade e disse que tinha comprado passagens muito baratas para Marrakesh, e perguntou se não estava interessado em ir também. Fiquei curioso, pois nunca tinha pensado em ir lá. É um daqueles países que não estavam na minha lista dos “1000 lugares para conhecer antes de morrer”.

Bandeira do Marrocos

Entrei no site da companhia aérea e constatei que as passagens realmente estavam baratas. Reservei um voo direto para dali a cinco dias, que acabou custando € 35,00 ida e volta, com taxas inclusas (saudades Ryanair!). Mas quem não curte viajar como sardinha enlatada, outra empresa low cost é a easyJet, e grandes companhias como TAP e Iberia também possuem voos regulares. Do Brasil ainda não há uma ligação direta para o Marrocos, é necessário fazer escala em alguma cidade europeia, como Madrid ou Lisboa.

O próximo passo foi reservar um albergue em Marrakesh, o que também acabou sendo barato. Fiz uma reserva pelo HostelWorld e paguei € 15,00 a diária, por uma semana. Quem não gosta de ficar em albergues pode optar por se hospedar em grandes hotéis, como o Hotel La Gazelle ou Siaha, que possuem diárias variando entre € 50,00 a € 300,00 ou o incrível resort La Mamounia, inaugurado em 1922, que possui diárias entre € 300,00 e € 4000,00. Há também as opções alternativas como o Airbnb, Craigslist ou CouchSurfing. Pronto. Passagens pagas e reserva efetuada, só faltava esperar o dia e fazer as malas.

Como o Marrocos é um país de clima mediterrâneo seco, normalmente as temperaturas durante o dia são mais elevadas, e à noite faz um pouco mais de frio. Portanto, o ideal é levar tanto roupas leves, quanto casacos. Aviso às navegantes: os marroquinos têm uma má fama em relação à maneira como abordam as turistas. Isso não significa que eles vão te agarrar no meio da rua ou coisa parecida, mas alguma investida será feita, principalmente se você estiver desacompanhada e/ou com roupas chamativas. Algumas dicas se você estiver sozinha no Marrocos podem ajudar a repelir olhares devoradores e curiosos: não use roupas curtas, como minissaias e decotes; prenda os cabelos, entre na moda marroquina e use um lenço; não responda perguntas nas ruas e mantenha sempre o seu ritmo; e claro, evite sair sozinha à noite.

Mapa do Marrocos.

O Marrocos fica localizado no extremo noroeste da África, e tem 710 km² de extensão e mais de 33 milhões de habitantes. Está a apenas 13 km do sul da Espanha, separado pelo Estreito de Gibraltar, sendo banhado tanto pelo Mar Mediterrâneo quanto pelo Oceano Atlântico. O país ainda é uma monarquia, em que o rei é o chefe de governo e a capital é Rabat. O islamismo segue como religião oficial e o árabe como língua mais falada, porém é comum encontrar placas, avisos, cartazes escritos em francês, uma vez que o Marrocos foi colônia francesa. A moeda local é o dirham (DH), existem cédulas de 10, 50, 100 e 200 DH e moedas de 5, 10, 20 e 50 centimes (centavos), e de 1 e 5 DH.

Ainda guardo uma nota de 20 DH de recordação.

Durante toda a semana que permaneci lá, gastei em média € 300,00, com a passagem inclusa. Alguns restaurantes mais modernos e hotéis aceitam cartão de crédito/débito, entretanto a grande maioria dos estabelecimentos trabalha exclusivamente com dinheiro. Existem vários caixas eletrônicos espalhados pelas ruas da cidade, de onde é possível sacar mais caso o seu acabe.

Depois de sobrevoar metade de Portugal e cruzar o estreito de Gibraltar, aterrissei no aeroporto Internacional de Marrakesh, numa manhã de fevereiro. Logo após o portão de desembarque, uma funcionária do aeroporto nos recebeu e nos deu mapas da cidade. Explicou que a melhor maneira de chegar ao nosso hostel seria de táxi, pois os ônibus eram velhos e demoravam a passar. Como em todo aeroporto, vários carros ficam a espera de passageiros para levá-los a seus respectivos hotéis. Por mais que Marrakesh seja uma cidade grande, não há taxímetro nos veículos. O valor é combinado com o taxista, dependendo da distância. Combinamos o valor e fomos para o albergue. Na hora de pagar, o motorista simplesmente aumentou o preço porque éramos turistas. Tentei argumentar com ele e dizer que estava sendo injusto, mas diante de tamanha teimosia acabei cedendo e pagando.

A medina de Marrakesh, ou a Cidade Fortificada, é o centro histórico do município, cercada por grandes muralhas, onde encontramos o mercado, a praça Djeema El-Fna, os jardins e a Mesquita de Koutoubia. Se aventurar por aí pode ser um tanto quanto complicado, pois as ruas são pequenas e o pedestre tem que lutar com carroças, motos, bicicletas, tudo junto e misturado, sem qualquer placa de trânsito ou um policial para ajudar no fluxo.

A praça Djeema El-Fna é a mais movimentada de Marrakesh, e a que mais atrai turistas, com espetáculos variando de saltimbancos a encantadores de serpentes. Pessoas com trajes típicos param para tirar foto com estrangeiros, mas geralmente eles cobram uma taxa. Num dos lados da praça, dezenas de barracas servem uma excelente comida, tipicamente marroquina, como cuscuz, brochetes de carne e frango, salada, tajine e o delicioso chá de menta. Quem não quiser se misturar com os locais pode escolher os ótimos restaurantes para turistas ao redor da praça, e para os apressados, há também as redes de fast food KFC, McDonald’s e Subway.

Vista parcial da praça Djeema El-Fna

Na medina é fácil se perder com os cheiros, cores e sons dos comerciantes. Há uma grande variedade de produtos, que faz com que você queira encher sua mala de objetos. O segredo na hora da compra está na barganha. Assim como no caso do táxi, tudo é combinado no Marrocos. Num país com tradições comerciais, a barganha é o verdadeiro lema dos vendedores. É uma questão mais que cultural, é uma arte. Mas não comece uma negociação se não tiver o interesse de levá-la a cabo. Eles podem sentir-se ofendidos. E tenha paciência, pechinchar com os marroquinos requer tempo.

A sudoeste da praça encontra-se a Mesquita de Koutoubia, com seu imponente minarete de 69 m. O seu interior é constituído por seis salas, uma por cima da outra. Da torre se ouve a voz do muezim chamando os fiéis para rezar “Allah u akbar” (Deus é grande) cinco vezes ao dia. Ao lado da mesquita encontram-se os jardins da cidade, uma ótima pedida pra quem quer descansar um pouco e apreciar uma área sombreada.

Os jardins são ótimos para descansar e aproveitar uma sombra.

Outro jardim famoso é o Majorelle, construído na década 1920 pelo pintor francês Jacques Majorelle, e que também pertenceu ao estilista Yves Saint Laurent. Com um pequeno museu e memorial sobre o artista, o jardim agrada por ser um verdadeiro oásis no deserto.

Memorial Yves Saint Laurent no jardim Majorelle.

Depois de conhecer a cidade por alguns dias, resolvemos fazer um passeio que nos levaria a um dos lugares mais bonitos e inóspitos da Terra: o deserto do Saara. O mais famoso dos desertos ocupa uma parte desse país, que leva seus visitantes a uma das mais belas paisagens do planeta. Várias agências de turismo de Marrakesh promovem esse passeio, a um custo aproximado de € 60,00 por pessoa.

Para começar, tivemos que deixar Marrekesh para trás e partir em direção à Atlas, a cadeia montanhosa que separa o deserto do oceano (Para quem não conhece o mito grego de Atlas, vale uma leitura). A estrada é bastante sinuosa, cheia de desfiladeiros e possui vários atrativos como as aldeias dos povos berberes.

Estrada sinuosa na cordilheira do Atlas.

As paradas mais interessantes ocorrem nas cidades de Tinerhir e Ouarzazate, logo após a descida da cordilheira. São famosas no Marrocos por servirem de cenários a vários filmes hollywoodianos, como “Gladiador”, “Lawrence da Arábia”, “Édipo Rei”, “A múmia”, entre outros. Ouarzazate é sede dos estúdios “Atlas Corporation” e tem um museu de cinema onde estão expostas peças dos cenários e vestuário usados em alguns filmes.

Museu de cinema de Ouarzazate.

Depois de uma longa viagem chegamos ao Saara. Um grupo de guias estava nos esperando com alguns dromedários. Montamos nos bichos e partimos para o acampamento no deserto. É meio desconfortável andar em cima de um dromedário: a rahla, cela que usam para montar no animal é dura, e o andar do dromedário sobre as dunas faz com que percamos um pouco do equilíbrio.

Dromedário: meio de transporte no deserto.

O acampamento não era muito grande. O único problema foi o banheiro, ou melhor, a falta dele. Como estamos no deserto, não há encanamento, tampouco água em abundância. Portanto, quem quisesse fazer as necessidades, teria de usar uma fossa, cavada nas areias. Um pouco primitivo, mas que deu conta do recado. Tendas foram montadas ao redor de uma fogueira, e um jantar foi servido. Mais tarde, sob o céu iluminado do deserto, os guias fizeram uma apresentação com músicas marroquinas, utilizando instrumentos que nem sabia que existiam.

Vista parcial do acampamento.

Às 5h fomos acordados para poder assistir ao espetáculo mais aguardado da viagem: o nascer do sol. Subimos até o cume de uma duna, de onde teríamos uma boa visão. O sol nascia sobre os montes de areia, revelando o verdadeiro tamanho do deserto: dunas, dunas, e mais dunas, até o fim do horizonte. Estava no Saara. Pra lá de Marrakesh.

O nascer do sol no Saara.

*Felipe Gasparete, 25 anos, é jornalista e ama viajar. Quer ter a maior quantidade possível de carimbos no passaporte. Tem os pés e a cabeça nas nuvens.

Anúncios
Esse post foi publicado em Marrocos e marcado , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Pra lá de Marrakesh

  1. fernanda disse:

    Oi Felipe! adoreiiii sua postagem… vou em dezembro… iremos eu e meu namorado e o plano será fazer Marrakech, Quarzazate e se der Merzouga. Vc tem alguma dica pra nos dar? :0… bj boa viagem

  2. Mayara Isabel disse:

    PRECISO ir para o Marrocos, agora mais do que nunca!! Já pensava em fazer essa viagem, agora tomei coragem para colocar meus planos em prática! Parabéns pelos blog!!

Comentários, sugestões, dúvidas? Respondo a todos!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s