Ceia italiana e fogos ingleses

2011 chegava ao fim. Os pinheiros, as lojas lotadas de gente em busca do presente ideal e as luzes coloridas espalhadas pelas cidades indicavam a proximidade do Natal e apertavam a saudade de casa e dos amigos. Mas o medo de passar as festas de fim de ano sozinho logo ficou para trás, graças a dois convites que chegaram na hora certa.

Uma amiga de longa data – que hoje vive em Torino com sua família – estava acompanhando o blog e me chamou para passar o Natal na cidade, localizada no Norte da Itália. Não via Ciara há alguns anos.  Mesmo assim, as divertidas lembranças da adolescência na cidadezinha de Tocantins (que fica no interior de Minas Gerais, apesar do nome) me davam a certeza que aquele Natal italiano não me desapontaria.

Depois de sair de Roma e enfrentar 10 horas de uma pitoresca viagem de trem dividindo o vagão mais apertado do mundo com cinco italianos e um yorkshire malocado na bolsa da senhora ao meu lado, finalmente desembarquei na Estação de Torino. Os trilhos são o meio mais fácil e barato para viajar pelo território italiano e as passagens podem ser compradas pelo site da Trenitalia.

Fui muito bem recebido por Ciara e toda sua família. As crianças, Ana Clara e Ian, são divertidas e muito educadas: os dois falam português e italiano fluentemente. O marido, Boneco, é mestre de capoeira e nas horas vagas também dá show na cozinha. Depois de tantos meses sem arroz com feijão, foi no Norte da Itália que matei a saudade do sabor brasileiro. Confirmo: Não há comida melhor que a nossa no mundo todo!

Meus anfitriões me levaram ao Centro de Torino, onde um grande presépio havia sido montado

A decoração natalina era bem criativa, com desenhos em 3D

Um registro de parte da bela cidade de Torino

Para completar essa recepção digna de Chefe de Estado, soube que a ceia aconteceria na casa de uma típica família italiana, amigos de Ciara e Boneco. E quanto a gente pensa em uma família italiana, logo vem à cabeça… festa e comida, claro! O que eu não imaginava é que estava prestes a participar de um banquete. A ceia era servida por etapas, um prato de cada vez. Mas antes mesmo que o primeiro prato fosse devorado, lá vinha a Anna trazendo outra iguaria rara. Sem exagero, a mulher (que não lembra em nada o estereótipo da mama gordinha italiana) deve ter trazido uns dez pratos diferentes, de massas saborosas a camarões do tamanho da minha mão! Quem já foi comigo a um rodízio sabe que não sou de desistir fácil, mas houve um momento naquele jantar em que não entrava mais nada. Acho que nunca vi tanta comida boa junta em um lugar só. Detalhe: voltamos para o almoço do dia 25 e fizemos um belo repeteco daquela comilança.

Brasileiros e italianos reunidos para festejar (e comer)!

Antes do jantar já dava para ter uma ideia da fartura que encontramos por aqui

Ciara, a principal responsável pela salvação do Natal - Valeu demais!

Aproveitei meus dias em Torino para descansar e recarregar as energias. Afinal, 2012 já estava logo ali! Depois de uns bons dias de descanso e uns cinco quilos a mais, chegou a hora de agradecer e dizer adeus mais uma vez.

O próximo desafio era pegar o ônibus para Londres. Isso mesmo, um ônibus da Itália à Inglaterra! Explico: Meu itinerário inicial previa o voo Roma-Londres no dia 2 de janeiro, o que me obrigaria a passar o Reveillon na capital da Itália. Só que no fim das contas fui convidado pelo Eduardo, que conheci na Jordânia, para conferir os fogos de artifício da London Eye e percebi que seria uma maluquice pegar um voo no dia seguinte à virada do ano, ainda mais com a possibilidade de passar o Reveillon na vibe forever alone. Como não consegui antecipar o voo (o argumento da American Airlines era de que não havia mais vagas de realocação disponíveis para o período entre o Natal e o Ano Novo) e a passagem mais barata de uma low-cost que encontrei para essa época custava mais ou menos 300 euros, a única alternativa com um custo razoável era pegar a estrada, em uma viagem de 23 horas. Para fazer igual, é só comprar a passagem pelo site da Eurolines, que oferece inúmeros trajetos de ônibus entre os países da Europa. Como já tô escolado nessas viagens de longa duração, garanto que não me arrependi!

O ônibus viajou durante a noite toda até Paris, onde houve uma escala. Por isso, deu para dormir durante todo o percurso. E para chegar a Londres atravessamos o Norte da França até a cidade de Calais, onde fica o posto de imigração britânico. Se você também está pensando em entrar no Reino Unido por terra, prepare a documentação. Minha entrevista foi longa e detalhada, mas no final deu tudo certo. A curiosidade fica por conta do Eurotunnel, um túnel de mais de 50km que cruza as águas do Canal da Mancha. O ônibus entra dentro de um vagão bem apertado, desliga o motor e fica todo mundo lá dentro, num ambiente bem claustrofóbico, durante mais ou menos uma hora até chegarmos do outro lado. Cada veículo fica em um “compartimento” e eles permanecem separados por portas fechadas a vácuo – para ir ao banheiro, que fica lá no primeiro vagão, você precisa apertar um botão para que o ar saia e permita a abertura das portas entre os compartimentos. É esquisito e interessante.

O ônibus fica paradinho ali dentro do vagão apertado. Até para sair de dentro do veículo falta espaço

“Cheers”

Logo depois de entrar em território inglês, o ônibus fez uma parada para lanche – uma ótima oportunidade para adicionar mais um miquinho a minha já extensa galeria: Pedi um cappuccino numa coffee shop, paguei, peguei meu café e agradeci da maneira mais conhecida, com um “thanks”. Em seguida, a mocinha que me atendeu respondeu: “Cheers”! Como em inglês “cheers” é a palavra que eles usam para levantar as taças e pedir um brinde (tipo “tim-tim”), ergui meu copinho de café e concordei, felizão: “Cheers”! A moça fez uma cara de deboche, que naquele momento não entendi. Depois de alguns dias na Inglaterra, entendi que no país eles raramente usam “thank you”. É que aqui “obrigado” é “cheers” e a mulher do café deve ter lembrado de mim o dia todo como o retardado que fez um brinde com um cappuccino.

Voltando ao ônibus, mais algumas horas de estrada e finalmente desembarcamos à capital da Inglaterra, que também será o assunto do próximo post. Mas antes, vou contar como foi a chegada do Ano Novo na terra da Rainha Elizabeth.

Como Londres é a sede das Olimpíadas de 2012, havia uma grande expectativa em torno do espetáculo dos fogos de artifício na London Eye, a moderna roda gigante que na última década se tornou um dos símbolos da capital inglesa. Por isso, saímos de casa por volta das 20h para tentar pegar um bom lugar em frente ao Rio Tâmisa, onde a visibilidade é melhor. Quando saímos do metrô, fiquei assustado com a quantidade de gente que já ocupava cada metro quadrado da rua no entorno do Palácio de Westminster e do Big Ben. A numerosa força policial controlava a multidão (que se mantinha relativa e surpreendentemente organizada) e acompanhava qualquer movimentação estranha – terrorismo é uma possibilidade séria por esses lados, especialmente em dias de aglomeração tão intensa. Depois de nos embrenharmos por entre os espacinhos que surgiam no meio de tantas pessoas, finalmente encontramos um lugar excelente para ver os fogos e ali ficamos por umas três horas.

Milhares de pessoas se aglomeraram em frente à London Eye para acompanhar a queima de fogos

O Big Ben já estava prestes a anunciar a chegada de 2012

Quando a contagem regressiva começou, milhares de celulares e câmeras se posicionaram

E 2012 finalmente chegou! E hoje já faz quase um mês que o Ano Novo começou... o blog tá atrasadinho, né? =)

Como é difícil fotografar fogos de artifício, adicionei aí embaixo o vídeo oficial da BBC com o espetáculo do Reveillon de Londres para vocês conferirem. Foi muito bonito, especialmente a seleção musical, cheia de artistas britânicos. E achei uma ideia excelente concentrar a queima dos fogos em torno de um ponto fixo, pois assim o efeito estético é multiplicado.

A partir de 9:00 fica bombástico!

Depois de assistir os fogos, entornamos nosso champagne e fomos embora, porque após tantas horas em pé debaixo do chuvisco londrino não há animação que dure. E foi assim, graças à ajuda de antigos e novos amigos, que meu fim de ano foi tão diferente e inesquecível quanto os últimos meses mundo afora!

Vamo com tudo, 2012! Até o próximo post!

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11 respostas para Ceia italiana e fogos ingleses

  1. Fernanda disse:

    Oi Fellipe…ri muito com o cheers!!! hahaha. Eu boiei totalmente nos meus primeiros meses em Londres, Nao entendia nada do que eles falavam, nada. hehehe. Mas, eh isso ai mesmo. E se vc for para a Australia um dia, nem tente falar my friend, pq na hora eles vao te responder com um hey mate! Eu infelizmente passei meu unico reveillon em Londres trabalhando. Na epoca era bartender e precisava do dinheiro. Fail!!! Quem sabe um dia eu volte para ver os fogos. Londres eh top! beijos. Fernanda

  2. Eduardo Zanatta disse:

    E um aspecto extremamente importante com relacao a Londres: os fogos sao mais bonitos do que barulhentos.. acho que deveriam adotar o mesmo estilo no Rio, ao inves daqueles incansaveis minutos de estouros…
    vc nao comentou nada da poca de vomito que o carinha fez, abrindo uma clareira no meio da multidao!!! 🙂

  3. Daniel Santiago disse:

    Caramba! Que queima de fogos foi essa? Sambou no Rio!!

    • Daniel Santiago disse:

      HAHAHAHAHAHAHAHA… to me lembrando daquela tragedia q foi nosso reveillon no Rio anos atras… eu, vc e Gutim! KKKKKKKKK

    • Fellipe Faria disse:

      É o que eu disse sobre a diferença de uma queima “concentrada”! Como Copacabana é muito larga, os fogos ficam todos espalhados… se fizessem, sei lá, em torno do Cristo ou algo assim seria um treco de doido.

  4. Felipe Mendes disse:

    Cara, a gente passou um reveillon muito FAIL em Londres. Entramos na “área reservada” próxima à London Eye sem bebida, e quando decidimos ir procurar algo pra beber, descobrimos que não vendia NADA alcóolico ali nas redondezas. Andamos por cerca de meia hora até achar um lugar que vendia cerveja, e, quando voltamos, já não era permitido passar pra dentro da área delimitada. Vimos os fogos de longe, mas, pelo menos, com Stella Artois meio litro a 1 pound ou menos 🙂

    • Fellipe Faria disse:

      Pô, tava barata demais! O que nos salvou foi ter levado as garrafas de champagne… porque ficar em pé naquele frio a seco ia ser duro, viu? Mas acho que esse controle acaba meio sem nexo, porque depois dos fogos tinha um povo seminu bêbado dançando em cima das estátuas da beira do Tâmisa! Contradições londrinas, hehe…

  5. Verônica disse:

    Tá atrasado mesmo, Bôl! rs* Sinto falta de mais posts, é sempre uma delícia ler seus textos! Sua ceia natalina me lembrou “Comer, rezar, amar”, hahaha Beijos!!!

    • Fellipe Faria disse:

      Vê, a ceia estava mais para “Comer, comer, comer”, hehe! Agora tá acabando… só falta falar de Londres, Bournemouth e Cardiff. E Paris, para onde tô indo na segunda… 10 dias para voltar ao Brasil! Nem acredito! Beijão

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