Um dia eu volto, Singapura

Como vocês já sabem, fui embora de Singapura querendo ficar. Foi só uma semana por lá – tempo suficiente para conhecer um pouquinho do sistema social e da cultura que reina no país, algo que vou tentar explicar neste post. Convivem pacificamente nesta ilha povos bastante distintos: malaios, indianos, chineses, executivos ocidentais expatriados, entre muitos outros imigrantes – inclusive, a maioria das placas e avisos é escrita em quatro línguas: inglês, malaio, híndi e chinês.

Muçulmanos de Singapura

A Malásia, um país de numerosa população islâmica, tem intensas relações com Singapura devido à proximidade geográfica. Assim, é comum ver mulheres com o tradicional véu pelas ruas e até algumas completamente cobertas com uma burca. Encontrar as várias mesquitas espalhadas pela cidade é sempre interessante.

Algumas mesquitas, como esta, parecem coisa de filme

Certo dia, enquanto esperava por um ônibus, puxei papo com uma senhora muçulmana. A mulher, chamada Salmi, tem 72 anos e se casou com seu marido aos 15, quando ainda vivia na Malásia. O esposo arrumou um emprego de policial em Singapura e os dois acabaram se mudando. No país, ela teve seis filhos e aprendeu a falar inglês – na verdade Singlish, uma variação muito divertida do inglês que se escuta por aqui (eles terminam a maioria das frases com lah, uma partícula sem função definida, parecida com o uai dos mineiros e o daí dos catarinenses).

Ponto de ônibus: um ótimo lugar para conhecer gente

É um grande clichê, mas conversando com Salmi voltei a perceber como é injusto atribuir um estereótipo tão ruim (terroristas, fundamentalistas, machistas…) ao Islamismo. Aquela mulher que encontrei no ponto de ônibus é apenas uma senhora extremamente simpática, alegre, independente e, ao mesmo tempo, fiel a algumas de suas tradições: ela acha um absurdo ver um de seus netos namorando, pois quer logo vê-lo casado. Foram só vinte minutos papeando antes de descer do ônibus, mas uma experiência muito rica para quem nunca havia trocado meia palavra com uma fiel de Maomé.

Esta é a Salmi, uma velhinha muito gente boa

Uma Chinatown bem diferente

Em Singapura também existe uma Chinatown, aquele conjunto de ruas em que você pode ter contato com a culinária, os costumes e a quinquilharia que vem da China. Só que aqui, como quase tudo, a história é diferente. As ruas são limpíssimas, não existe bagunça nem mau-cheiro e muitos produtos ficam expostos na rua à disposição do freguês. A severidade da pena para furto deve afastar os larápios, porque fui comprar um ímã de geladeira e demorei um tempão para encontrar um funcionário da loja!

Tudo é tão organizado que nem parece uma Chinatown

"Quebrou, pagou": a delicadeza típica dos chineses aparece até no display de lembrancinhas

O templo hindu mais famoso de Singapura fica curiosamente no final da rua principal de Chinatown. Centenas de indianos e turistas visitam diariamente o Sri Mariamman Temple, muito conhecido por suas esculturas coloridas.

Todo mundo tem que tirar o sapato antes de entrar. Pode ir tranquilo, ninguém vai roubar suas Havaianas

Detalhe das esculturas na torre do templo

Little India

Muitos indianos migram para Singapura em busca de uma vida melhor. E assim como em Chinatown, eles se agruparam em uma região da cidade que ficou conhecida como Little India. É impossível andar por estas ruas sem lembrar da novela das oito: Milhares de Rajs, Mayas e Bahuans circulam pelas lojas, feirinhas e restaurantes do local. E por falar em restaurante… o cheirinho de curry é muito bom, mas confesso que levei um susto ao ver a galera pegando a comida com a mão e mandando pra dentro sem a menor cerimônia. A visão não é das mais apetitosas para um brasileiro acostumado com garfo e faca.

Badulaques de todos os tipos na feirinha indiana

Are Baba! Maya e Surya arrastam o sári pelo mercado

Quê isso, meu senhor? Karaokê erótico?

Celebridade por um dia: a moça estava adorando ser entrevistada

Talher pra quê? Eles juntam o arroz com a mão, molham num caldinho de carne e mandam a mistura pra dentro

Domésticas de Mianmar

Como todo país com desenvolvimento intenso, Singapura recebe imigrantes do mundo todo à procura de um lugar ao sol. Entrei em um shopping procurando algo para comer e fiquei espantado: praticamente todas as lojas eram ocupadas por agências de emprego que treinavam e recrutavam empregadas domésticas de nações mais pobres do Sudeste Asiático (Mianmar, Filipinas, Vietnã…). Muitos desses estabelecimentos estavam lotados de jovens, que abriram mão de um futuro nebuloso em seus países para ganhar dinheiro prestando serviço à classe média de Singapura – movimento muito parecido com o êxodo que ocorria com mais intensidade há alguns anos entre brasileiros que deixaram o país atrás do sonho americano. Cenas como esta sempre me deixam pensativo: Por que essas moças não puderam ter oportunidades melhores em seus países? Injustiça, azar, sorte… tudo parece se resumir a uma mera questão de localização geográfica.

Malas e mulheres se acumulam nas agências de emprego de Singapura

A maior parte das lojas deste shopping eram ocupadas por empresas de recrutamento

Imagens do treinamento das futuras domésticas na vitrine: até hoje não sei o que pensar sobre essa situação

Quando eu voltar…

Meus dias em Singapura foram muito agradáveis. Sempre que precisei pedir uma informação ou comprar alguma coisa fui recebido com gentileza, honestidade e curiosidade sobre o Brasil. Mesmo as pessoas que não sabem falar inglês se esforçam para entender a mensagem e dar uma ajudinha. A alegria desse povo que sabe conviver com as diferenças tornou esta etapa da viagem muito especial e me deixaram com muita vontade de ficar mais um pouquinho. Fiz até uma listinha com coisas que quero fazer quando voltar a Singapura (da próxima vez, mais turista e menos mochileiro):

– Dar uma voltinha na Singapore Flyer, uma das maiores rodas-gigantes do mundo
– Experimentar durian, a fruta com cheiro terrível
– Comer com a mão em Little India
– Passear em Sentosa, uma mini-ilha cheia de parques e atrações caras para turistas
– Nadar na piscina do Hotel Marina Bay Sands vendo aquela cidade incrível lá de cima

Quando vi esses garotos jogando bola, tive que contar que era brasileiro. Eles ficaram muito empolgados! Pedi para tirar uma foto e eles logo se posicionaram

O registro da alegria estampada no rosto das moças muçulmanas

Arte urbana maluca: isso parece um perfeito círculo de concreto...

...mas que tal olhar mais de perto? Criatividade e ilusão de ótica no meio da rua!

Milhares de indianos em marcha pelas ruas de Singapura para comemorar o Deepavali, data mais festiva do calendário hindu

Singapura não é só rigidez: em regiões menos turísticas, a bagunça asiática dá o ar da graça e impede até a passagem dos pedestres na calçada

 Fun, fun, fun, fun!

Se tudo isso que vocês viram não fosse suficiente para considerar a semana em Singapura uma das melhores desta volta ao mundo, a diversão e a galera que conheci nesses dias me dariam essa certeza. No hostel em que fiquei tinha gente dos quatro cantos do planeta, o que sempre é certeza de muito papo, álcool… e muita farra! Para não ver sua credibilidade ameaçada, este jornalista não mostrará as fotos impublicáveis dos momentos mais malucos (e inesquecíveis!) dos dias de Singapura. Mas pelas imagens a seguir dá pra ter uma idéia.

A festa estava só começando. As britânicas Sophie e Catriona estavam no meio de sua viagem pelo mundo, enquanto o italiano Thomas já estava encerrando sua jornada...

...e quando o álcool subiu, o marroquino-inglês Karim e os franceses Alexis e Vivien já tinham se juntado à farra, que chegou à lojinha de conveniência da rua

Esses dois terminaram a faculdade em Paris e foram para a Austrália colher laranjas e aprender inglês. Malucos! =D

Fiz amizade com o pessoal do bar e acabei ganhando uma dose de cachaça...

...que estava muito boa, como você pode ver pela minha expressão de deleite

_____Por tudo isso, a semana em Singapura foi uma grata surpresa. Mas como tudo que é bom dura pouco já estou em Bangkok, uma cidade em que a organização e a disciplina de Singapura parecem não fazer falta. Mais notícias em breve, assim que eu me refizer das noites da Tailândia!

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21 respostas para Um dia eu volto, Singapura

  1. A Dn. Salmi seguidora de Maomé parece ser uma senhora muito simpatica

  2. Luiz disse:

    Eu tenho um amigo Indiano que está aqui pelas americas neste momento, mas sua residencia é em Singapura…bem ler as suas descrições so me fez ter certeza de que vou passae uma seman por lá Fellipe. Ah! tem mais uma questão: Quanto tempo em media voce dedicou a cada pais?

    • Fellipe Faria disse:

      Luiz, depende!
      Depende do país, da companhia, da vontade e possibilidade de explorá-lo… fiquei um mês na Tailândia, mas poderia ficar mais dois tranquilamente. Fiquei dois dias em Israel e foi pouquíssimo tempo, mas cinco dias em Istambul já estavam demais para mim, porque o hostel estava vazio e não conheci praticamente ninguém! =)

  3. Mateus Melo disse:

    Bom dia Fellipe!
    Meu nome é Mateus, e eu li tudo que você postou!
    Apareceu uma oportunidade para mim de fazer uma pesquisa pela na universidade, lá em Singapura.
    Mas não tenho noção de valores… Não sei se vou conseguir me manter lá pela bolsa que receberei.
    Você poderia me passar algum valor por cima (mais o menos, quanto gastaria lá por mês)? Com relação a alimentação e moradia.
    Um abraço e parabéns pelos posts! Gostei muito.

    • Fellipe Faria disse:

      Mateus, tudo bem? Que bom que gostou dos posts… tenho certeza que você também vai adorar Singapura!
      Singapura não é um país caro, mas comparado aos vizinhos baratíssimos do Sudeste Asiático os custos acabam parecendo vultosos. 10 dólares de Singapura hoje valem mais ou menos US$ 8. O seu custo de vida por lá vai depender, obviamente, do padrão que você escolher para sua rotina. Lá em Singapura, conheci um inglês que estava procurando emprego e morava no hostel para economizar e, num trato com o gerente, pagava menos de SGD 300 por mês para dormir no quarto com 12 pessoas – mas esse tipo de acomodação valeria a pena para você? Os preços variam muito por lá, mas acho que é possível encontrar algo que se encaixe nas suas possibilidades. Comer nas barraquinhas de rua pode sair por 2 ou 3 SGD, mas você tem que avaliar se está disposto a comer chicken rice e noodles quase todo dia. É possível encontrar uma boa refeição, um pouquinho mais diferenciada em um restaurante mais arrumadinho, por uns 7SGD. Com relação ao transporte, há ônibus e metrô. As taxas dependem do local de onde você sai e para onde você vai… o ônibus é mais barato, claro.
      Bom, espero que tenha ajudado. Abraço e boa sorte!

  4. disse:

    Fellipe, animal, estamos super cogitando incluir Singapura no meio da trip! É uma cidade muito cara? besos!!!

    • Fellipe Faria disse:

      Nã, não cogite, inclua! Singapura foi um dos lugares que mais me agradaram e surpreenderam… riqueza cultural, econômica e humana, é um lugar incrível e único. É caro, mas nada europeu. Dá pra comparar com os gastos de uma viagem pelo Brasil.

  5. Paulla disse:

    Gente, cada post melhor que o outro!!! To mto apaixonada pelo blog rsrs
    Estou começando a me organizar e a economizar.. breve tbm farei um rtw! e seu blog tá me ajudando muito!! Parabénss!!!

    • Fellipe Faria disse:

      Paulla, faça sim… junte seu dinheirinho e ouça este mochileiro: quando estiver em um lugar que você sempre sonhou ver de perto, vai perceber que tudo valeu a pena! Boa sorte e sucesso na empreitada! Abração

  6. Lilian disse:

    Quando fui a Londres no ano passado,a casa qu meu namorado morava, era de uma família de Bangladesh. Eles também comiam com a mão, andavam pela casa descalços, rezavam 6 vezes por dia, tomavam banho esporadicamente..enfim, muito diferente! Mas, como você mesmo disse, a experiência foi muito boa, eles me trataram super bem, querendo me agradar o tempo todo, me deram presente etc. Esse tabu de medo que existe em torno dos mulçumanos tem que acabar! São pessoas simpáticas e muito receptivas! Um abraço!

  7. Bol!! muito legal!! Vc está super certo.. a gente tem q ir fazendo listinha de coisas a fazer nos lugares legais p poder voltar eheheh.
    Istambul está quase chegando né. Num sei se vc já reservou hostel por lá, mas de cara te falo, fica em Taksim!! É o bairro moderninho de Istambul, das noites badaladas. Os outros lugares são mais conservadores, mesmo pra quem é homem. Vale a pena ir nos lugares túristicos todos: Blue Mosque, Aya Sophia, Galata Tower (vista linda da cidade q eu não consegui ter, só por foto), Spice bazar, Basilica Cisterna, Museo Arqueológico, Topikapi Palace, se tiver tempo, pega uma barca pro lado asiático, não consegui ir lá, mas dizem q é tudo!! Coma muitos kebabs e aproveita a noite de Istambul que é ótima!!! Nunca bebi tanto e me diverti tanto!!
    Bem.. acho q é só..
    De olho no blog!!
    bjo grande!!

  8. Renata Oliveira disse:

    Publica, Publica… Show !
    Aventuras massas ! Farras, novas amizades, curtição.]To adorando ! Parabéns !

  9. Daniel Santiago disse:

    tbm adorei o circulo doido! Dps vc pode me passar mais fotos impublicaveis como aquelas da outra vez! hahahahaha

    No aguardo…

  10. Que lugar bacana, Bolshoi! Adorei o círculo de concreto que num era círculo. Que doido!
    🙂

  11. Guilherme Arêas disse:

    “depois você tem que dar um curso de como tirar fotos de pessoas sem elas percebam…”

    hahahahha… falou tudo…

  12. Papel disse:

    melhor post até agora! =)
    depois você tem que dar um curso de como tirar fotos de pessoas sem elas percebam…
    e o fato de indiano comer com a mão realmente é estranho. sempre perdia o apetite quando um amigo de lá queria almoçar na minha mesa..
    e esperava as fotos proibidas neste blog! ahahahahahaha

    aguardo pelo ‘The Hangover 3’!!!!

    abração

  13. Kécia disse:

    Muito legal Fellipe! Mais uma vez adorei! (tá ficando repetitivo isso..rs)
    Ahhh… mas as fotos impublicáveis devem ser as melhores!! (só tem maior de 18 aqui, pode postar tranquilo..hehe…)
    Não vejo a hora de ler as próximas aventuras!
    Beijo!!

  14. Louise disse:

    wwwowowowow Meu Deusu.. que aventura… quanta experiência.. e o melhor.. compartilhando com a gente.. desejo de estar com vc a cada vôo que vc dá…(e não a cada passo né?kk) Me deu até vontade de conhecer esses lugares.. e logico que vc faz amizade rapido.. vc é um LOUCO.. INSANO..

  15. Bicas disse:

    A foto da “louca” em cima do balcão me lembrou o filme “Se beber não case 2”. huahauahauhauah
    Pelo menos não foi uma tatuagem aquele bigodinho…
    qual o próximo destino?

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