Novos olhares sobre Hong Kong

Hong Kong fica do outro lado do mundo, mas me lembrou muito o Rio de Janeiro. Desde o momento da aterrissagem, é possível notar a beleza da convivência entre a floresta, a água em abundância e os prédios construídos em meio à natureza. Chegando ao Centro da cidade, outros fortes contrastes presentes naquela dinâmica urbana: a modernidade dividindo espaço com a tradição, a limpeza dos espaços públicos controlados pelo governo e a falta de higiene em algumas propriedades privadas, turistas observando o que a pressa dos moradores já não permite admirar…

Os espaços públicos são limpíssimos. No metrô há até computadores com Internet de graça. No Brasil, é provável que não durassem três dias ou que fossem ocupados eternamente por usuários do Orkut

É lógico que o patriotismo impede uma comparação isenta, mas é que o Rio e suas paradoxos ainda são imbatíveis. Para encerrar mais uma etapa, O Mochilão divide com vocês as últimas histórias e imagens da World’s City na Ásia, como eles gostam de chamá-la:

De trenzinho até o topo da montanha

É possível ver quase toda a cidade do alto de um pico em Hong Kong Island. Para isso, é só pagar a viagem de ida e volta do Tram Peak (HK$85). O trenzinho, que mais parece um vagão de montanha-russa, sobe quilômetros morro acima até o Sky Terrace, prédio com um fantástico observatório em seu último andar. A subida é tranquila, mas na hora de descer o treco parece que vai despencar. Inclusive, percebi que uma velhinha no banco da frente estava rezando discretamente.

O Tram Peak, sempre cheio de turistas

A união entre a cidade e a natureza é bem bacana

O observatório fica no topo deste prédio

Lá no terraço, existe um coração gigante em que todo mundo pendura um pedido aos deuses do Oriente. Você pode pedir pra conquistar a pessoa amada em três dias, esquecer aquela paixão que não deu certo ou apenas declarar seus sentimentos. Como sou muito curioso, registrei alguns dos recados mais interessantes que encontrei.

Ah, você quer saber o que eu escrevi? Só indo a Hong Kong pra descobrir. Enquanto isso, veja algumas das mensagens:



Sinfonia visual

Os arranha-céus de Hong Kong são atrações sempre admiradas na cidade. E todas as noites, às 20h, esse horizonte de concreto e vidro recebe ainda mais olhares. Centenas de turistas se aglomeram na Avenida das Estrelas, em Tsim Sha Tsui, para observar um espetáculo de luzes nas coberturas das construções da Hong Kong Island. Para falar a verdade, eu estava esperando algo mais impressionante… não são tantas luzes simultâneas, a música é bem baixinha e ninguém sabe direito quando o troço acabou ou se já pode ir embora. Mas como é de graça, tá valendo.

O show de luzes e legal, mas nada de outro mundo

O Jet Lag

O frenesi urbano no Centro da Hong Kong Island

Saí de San Francisco à 1h da manhã de uma segunda-feira e cheguei às 7h de terça em Hong Kong. Como o voo obviamente não durou 30 horas, isso significa que perdi um dia da minha vida. Isso mesmo, o dia 3 de outubro não existiu para mim. Isso acontece por que a viagem dos EUA para a Ásia rompe a Linha Internacional de Data. Mas nessa história toda, o que importa é que eu cheguei extenuado a Hong Kong. Lá pelas 14h, permanecer acordado era um esforço quase sobre-humano. Acabei me rendendo ao chamado dos sonhos e dormi até umas 21h, quando meu corpo imaginava que um lindo dia estaria amanhecendo.

Depois de bater perna completamente ligado pela noite de Hong Kong, voltei para o quarto, mas só consegui dormir às 5h da manhã. Por isso, vale a dica: se você está pensando em viajar para a Ásia, lembre-se que chegar a um fuso horário com 11 horas de diferença vai exigir paciência. Os primeiros momentos de adaptação são duros e será imprescindível permanecer quase um dia inteiro acordado, para só ceder ao cansaço à noite. Foi assim que reajustei o relógio corporal.

Um dos prédios mais famosos de Hong Kong, a sede local do Banco da China já apareceu até no filme Missão Impossível

De vez em quando ainda é estranho pensar que enquanto estou acordando a galera aí no Brasil já está dormindo ou se preparando para a balada. Às vezes penso em ligar para casa, mas então lembro que se minha mãe vê um número internacional chamando no meio da madruga é capaz de infartar de preocupação antes mesmo de atender.

Etiqueta chinesa

Quem disse que orientais não demonstram afeto em público?

Hong Kong tem muitas facetas. Afinal, a cidade recebe milhares de executivos expatriados do Ocidente, muitos imigrantes da Índia ou outros países pobres da Ásia, além de inúmeros chineses vindo de um país com dimensões continentais (e por isso mesmo, tão diversificado em sua unidade). Fred e Letícia, colegas de volta ao mundo que ainda não conheci, percorreram boa parte da China e tiveram grandes experiências com o povo de lá, como contam em seu ótimo blog. Não dei tanta sorte…

Cheguei preparado para as diferenças culturais, mas é inegável que fiquei assustado com os arrotos da gerente do hotel, a falta de cerimônia do povo almoçando em papelões esticados no meio da rua, as sonoras flatulências no metrô, as escarradas suculentas em lugares lotados, o lixo no meio dos corredores… o pessoal por aqui realmente não tem frescura. E às vezes sabe ser bem grosso.

Enquanto alguns chineses não ligam para a higiene, outros (como esta perua de boina) são quase antissépticos. Repare na mãozinha

Pedir informação em Hong Kong era um suplício. Os chineses, em sua maioria, detestam ser incomodados por turistas – fui vítima da impaciência da galera até mesmo no balcão de informações do metrô, quando fui pedir ajuda e saí espaventado por um bigodudo magrelo, que não sabia falar inglês direito e ficou apontando com a mão o caminho que eu devia tomar sem nem olhar pra minha cara. Nas lojas de conveniência sempre cheias, as funcionárias atendiam correndo para evitar o crescimento das filas no caixa. E nas ruas de Tsim Sha Tsui, é impossível andar 10 metros sem que um gaiato ofereça ternos feitos à mão, relógios falsificados e até massagens eróticas.

Na contramão

Como vocês já sabem, Hong Kong é uma ex-colônia britânica. Por isso, o pessoal daqui adotou a mão inglesa para administrar o tráfego nas ruas da cidade. É lógico que isso costuma causar um pouco de confusão na hora de atravessar a rua, mas resolvi essa questão adotando a velha técnica pueril de “sempre olhar para os dois lados”. Mas o problema, meus caros, é que essas regras acabam valendo também para os pedestres. E como os chineses daqui não são as pessoas mais delicadas do mundo, recebi muito muxoxo e cara feia enquanto atrapalhava o trânsito das multidões nas galerias do metrô ou interrompia a subida de um apressado na escada rolante.

Aqui é assim: ida pela esquerda e volta pela direita

 Lições do Cazaquistão

Estou viajando há pouco tempo, mas já tenho uma certeza: os melhores presentes que tenho recebido não ocupam espaço na mochila. É até difícil explicar o quanto estou aprendendo com as pessoas que conheço pelo caminho, como meu colega de quarto do Cazaquistão. Sadvakkas acabou de se formar em Relações Internacionais na Universidade de Beijing. Ele me contou que muitos jovens das antigas repúblicas da União Soviética costumam ir para a China em busca de uma boa educação. E eu, que reclamava da quantidade de países que exigiam visto de entrada para os brasileiros, só parei para pensar que a situação poderia ser bem pior depois de ouvir os comentários dele, que mora em um país recém-desligado do controverso regime socialista. Também concluí que não deveríamos reclamar por pensarem que no Brasil se fala espanhol, que o Rio é a nossa capital e muito menos por terem como referência o futebol, o samba, o Carnaval. Você já ouviu falar em Almaty? Sabe que língua se fala por lá? Tudo que eu sabia sobre o Cazaquistão era baseado no filme Borat – ou seja, minha única referência sobre a terra dele era um monte de bobagens engraçadinhas inventadas sobre um país ainda desconhecido para a maioria de nós. Ah, uma observação interessante: o Cazaquistão ocupa uma posição mais elevada que o Brasil no Ranking de Desenvolvimento Humano da ONU.

Sadvakkas: quando eu for ao Cazaquistão, já tenho um lugar para me hospedar!

Fui embora de Hong Kong sem saber ainda se quero retornar um dia a esta cidade, tão marcada pelas contradições quanto meu proprio país. Mesmo assim, já me ajudou a provar: aquele brasileiro que embarcou no dia 15 de setembro rumo ao desconhecido vai voltar pra casa completamente diferente. Que tal deixar sua opinião?

Ah, já cheguei a Singapura e posso adiantar: Este país é fantástico!

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12 respostas para Novos olhares sobre Hong Kong

  1. Renata Oliveira disse:

    Arrasando, sempre ! Muito boa a viagem com vc… Sem dúvidas voltará ao Brasil (se voltar) outra pessoa. Esta experiência que vc tá vivendo é TUDO né? Show de bola.
    Ai, ai… queria tabnto saber o que escreveu no super coração !!! Mostrou dos outros o seu NADA ! rsrsrs

  2. Kécia disse:

    Mais uma vez… arrasou Fellipe!!
    Acompanhar seu blog é tudo de bom!
    Que a boa sorte te acompanhe sempre nas suas andanças!
    Beijo.

  3. Carol Cirino disse:

    Obrigada Daniel e Vivi: não precisarei mais ir a Hong Kong para ler o bilhete do Fellipe.
    E mais, é claro que você vai para Cingapura um dia desses aí. É mais provável que o seu amigo venha ao Brasil trocentas vezes do que você aparecer lá (sim, estou xoxando)… enganou ele hein?!

  4. Bob Thomas disse:

    Fellipe,

    I really enjoyed reading about your experiences in Hong Kong. I lived there for 2 years and loved it, and reading your blog brings back lots of great memories.
    Enjoy your adventures!

  5. Viviane disse:

    HAHAHAHAHAHAHAHAHA IDEM, Déniel. Bjux, amigo!

  6. Daniel Santiago disse:

    “Lá no terraço, existe um coração gigante em que todo mundo pendura um pedido aos deuses do Oriente. Você pode pedir pra conquistar a pessoa amada em três dias, ESQUECER AQUELA PAIXÃO QUE NÃO DEU CERTO ou apenas declarar seus sentimentos”

    Aposto um braço que sei exatamente o que vc escreveu nos vários papeizinhos que vc deve ter deixado por lá! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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