Um dia em Macau

Assim que cheguei a Hong Kong, comecei a me programar para conhecer os atrativos da região. Quando disse que queria conhecer a cidade-estado de Macau, meu colega de quarto perguntou se eu gostava de cassinos – afinal, esta outra região administrativa especial da China é conhecida como a capital dos jogos na Ásia, praticamente uma Las Vegas oriental. Expliquei que na verdade a curiosidade existia porque Macau, assim como o Brasil, é uma ex-colônia lusitana (Portugal assinou o acordo de autonomia em 1999, quando o governo chinês assumiu o controle limitado da área – mais informações na Wikipédia, que me emprestou o mapa abaixo).

Acordei cedinho e fui direto para a Estação Central do metrô. No porto de onde saem os ferry-boats em direção a Macau a cada 15 minutos, comprei minha passagem e carimbei a saída de Hong Kong na imigração (atenção: se o número de páginas em branco de seu passaporte for limitado, lembre-se que serão mais quatro carimbos neste bate-volta). Era apenas uma hora de viagem, mas como o barco fedorento sacudia mais que um touro mecânico e o chinês que veio sentado ao meu lado estava se lambuzando com um sanduba feito uma hiena devorando uma carniça, o trajeto pareceu interminável. Chegando em Macau, num dia bastante nublado, passei pela imigração e percebi que tomei o barco errado: acabei indo parar no terminal da ilha de Taipa, onde não há nada de interessante – só o maior e mais disputado cassino de lá, o famoso Venetian.

O ferry que faz o trajeto Hong Kong - Macau

Como parecia que ia chover e eu já estava por lá mesmo, tomei o ônibus gratuito do terminal até o cassino só para conhecer. Na chegada, aquela surpresa: o Venetian não era um espaço cheio de roletas, caça-níqueis e velhinhas enlouquecidas gritando “bingo”. O prédio gigantesco, na verdade, conta com um hotel luxuoso, restaurantes refinados, lojas de grife e até uma joalheria. Lá no meio do salão, entrei no clima e resolvi arriscar a sorte num caça-níqueis. Coloquei uma cédula de HK$ 10 (equivalente a mais ou menos uns R$ 2) e depois de umas três rodadas acabei ganhando HK$ 20. Aproveitei que estava no lucro e fui embora R$ 5 mais rico para Macau – o Venetian também disponibilizava ônibus gratuitos até o porto principal da cidade.

Na suntuosa entrada do Venetian, funcionários escalados especialmente para abrir a porta recebem os turistas

O cassino parece um palácio; fotos na área de jogos são proibidas

No Porto de Macau, o salão de desembarque parecia um baile de Carnaval: dezenas de mulheres fantasiadas ofereciam material de divulgação dos diversos cassinos, tentando aliciar jogadores e hóspedes para os estabelecimentos da cidade. Como a jogatina não era meu foco, peguei um mapa no setor de Orientação aos Visitantes e decidi ir caminhando até o centro histórico.

As representantes entediadas dos cassinos aliciam jogadores na chegada a Macau

A caminho do Largo do Senado, é muito interessante olhar para as placas e letreiros, porque tudo é escrito em chinês e português – afinal, a inculta e bela continua sendo a língua oficial de Macau. O problema é que quase ninguém sabe uma única palavra do nosso dicionário (conversei com uma única moça fluente em português por lá, funcionária pública) – e pouquíssimos se arriscam no inglês. Ou seja, para pedir informação tive que me virar na linguagem universal da mímica. E para explicar com gestos que eu precisava encontrar os Correios para enviar um cartão-postal? Muito engraçado!

Placas triíngues no Largo do Senado

A chegada ao Centro de Macau, considerado patrimônio da humanidade  pela Unesco, é um reencontro com nossas origens. É muito curioso ver aquela enorme quantidade de turistas chineses em meio às ruas que lembram nossas cidades históricas – Salvador, Diamantina, Paraty… não dá pra negar que bateu saudade.

Esse calçadão vocês já viram por aí

Como sou fã de pastel, entrei pra ver qual era... e descobri que o pastel era daqueles portugueses, de nata! =(

As ruínas de São Paulo, principal atração turística de Macau, ficam a algumas ruas do centro histórico. A construção, apenas a fachada monumental que restou de um colégio incendiado no século XIX, está no topo de uma escadaria. Apesar da quantidade de turistas ensandecidos, é bem legal (até porque é de graça)!

As imponentes ruínas de São Paulo no alto da escadaria

Dá pra subir lá na janela...

...e ver boa parte da cidade. A galera faz pedidos e atira moedinhas por ali

Algo bastante curioso em Macau é o contraste entre essa arquitetura colonial e a modernidade (e ousadia) dos modernos cassinos instalados a apenas alguns blocos. O prédio mais impressionante que já vi em minha vida (não digo isso em um bom sentido) estava ali a minha frente, fazendo sombra sobre outras dezenas de turistas igualmente embasbacados. Dourado, espelhado, enorme e em forma de abacaxi, considero o Hotel-Cassino Grand Lisboa uma das obras arquitetônicas de gosto mais duvidoso do mundo.

Cassino Grand Lisboa: uma aberração arquitetônica

O abacaxi colossal é todo espelhado

A Deusa dos Navegantes olha também pelos cassinos, que garantem o sustento de Macau

Como estava disposto a caminhar bastante por Macau, tive a chance de passar em diversos locais fora da rota turística. E o que mais me chamou atenção foi a quantidade de espaços públicos vazios ou com pouquíssimas pessoas andando por ali. Não fosse pela limpeza e cuidado com que esses locais são mantidos, um desavisado poderia imaginar que aquelas praças e ruas estavam abandonadas. E aí a comparação é inevitável: no nosso país, muitas vezes espaços assim são extremamente utilizados, mas deixados de lado pelo poder público ou mesmo vandalizados pela própria população.

Praça enorme e vazia na tarde de sexta-feira em Macau

Esta feirinha estava às moscas. Fiquei com pena

Na Torre de Macau, um dos símbolos da cidade, é possível saltar do maior bungee-jump do mundo. Mas o dia estava muito nublado, aí deixei pra uma outra oportunidade

Tomei o ferry de volta para Hong Kong sem saber direito como a pequena Macau, que guarda tantas semelhanças com a história do nosso país, conseguia manter tanta ostentação só com turismo e jogatina. E torcendo para que o Brasil um dia absorva as virtudes daquela nação-irmã pra misturar com o que a gente tem de melhor (e que ainda não vi igual por onde andei): a alegria do brasileiro.

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12 respostas para Um dia em Macau

  1. FELIPE,
    PENSO EM ABRIR UM RESTAURANTE BRASILEIRO EM MACAU , OQUE VC ACHA DISTO?
    eusebio chaves

    • Fellipe Faria disse:

      Eusébio, eu acho que tem tudo pra dar certo! É muito difícil encontrar brasileiros nessa parte da Ásia, mas acho que isso é na verdade uma grande vantagem competitiva. =)

  2. Andréa Siqueira disse:

    Eu fiquei igual ao Daniel. Ansiosa pra receber uma publicação. Estou adorando!!!! E você
    dá uma aula sobre cada lugar. Muito muito bom!
    bjosss

  3. Eliza disse:

    Poxa…que pena que não foi ao restaurante!
    Sobre Macau…nossa eu amo o lugar!
    É bem pequeno…basicamente cassinos, mas esse contraste Brasil (pelos brasileiros que vivem la)/China/Portugal me intriga mto!
    Talvez seja pq eu moro numa cidade pequena da China, e a vida em Macau parece beeeem mais fácil que aqui!

    E vc tem planos pra vir pra China?
    Fui pra Tailandia semana passada, cheguei ontem!
    Fui pra Koh Samui!
    Se quiser algumas dicas so falar!
    =D

    • Fellipe Faria disse:

      Eliza, quero dicas da Tailândia sim! Como expliquei no novo post, minha passagem pela China continental vai ficar pra próxima… e Macau é uma cidade realmente curiosa! Beijo

  4. Laura Nardelli disse:

    Mto legal!!!!!!! Achei q as construcoes antigas parecem Recife 🙂
    Bjooooos

  5. Daniel Santiago disse:

    Nem precisa falar né, amigo? ÓTIMO!
    Mas vc demorou pra postar dessa vez. Fico sempre na expectativa da próxima historia… hehe

    abraçao

    • Fellipe Faria disse:

      Déniel, o post ficou pronto na segunda, mas cadê que esse wi-fi terrível do hostel de Singapura deixava eu fazer o upload das fotos? Vou tentar subir o ultimo sobre HK ainda esta semana, OK? Abração!

  6. Guilherme Arêas disse:

    Putz, acho que o prédio-abacaxi de Macau ganha do chuveirão da Independência (agora Avenida Presidente Itamar Franco) no quesito bizarrice urbana … rsrs

    • Fellipe Faria disse:

      Guilherme, o wi-fi do hostel não tá me ajudando, mas assim que eu conseguir uma conexão melhor vou atualizar este post com mais fotos. O abacaxi espelhado é uma obra realmente incomparável! E não fale assim do chuveirão da Independência, uma verdadeira instalação estética urbana tipicamente juizforana…

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