Barcelona para mochileiros (Dia 3)

Por Bruno Bosi

No terceiro dia eu tinha planos menos elaborados e não precisaria correr pra fazer tudo. Bom, eu estava tranquilo quanto ao tempo, mas não sabia que no domingo Barcelona para. Evite domingos lá. Não tem quase nada aberto: mercado La Boquiera, lojas, bairro gótico… Meus planos incluíam o Bairro Gótico, museu do Picasso, museu do Chocólatra, obras de Gaudí na avenida De Graça e o estádio do Barcelona (Camp Duo). O bairro gótico tive que cancelar porque seria perda de tempo, então fui conhecer as obras do maior arquiteto catalão.

Casabatllo2As casas de Gaudí localizam-se na avenida De Graça – é a avenida com as lojas mais luxuosas de Barcelona. Não ligo muito para lojas, muito menos para as de grifes, mas foi bem estranho andar numa das ruas mais movimentadas de Barcelona com quase tudo fechado. As casas de Gaudí (Casa Batlló e La Pedrera) são muito bonitas por fora; e, apesar de querer entrar, nem me atrevi a pagar 21 euros. Para mim, umas das coisas que está virando moda na Europa e que está desencorajando turistas é cobrar altos preços para entrar em lugares históricos. É uma pena. Deveria ser acessível a todos, ou pelo menos a um preço menos salgado.

La Pedrera Vista general

Vale a pena se enfiar nos becos paralelos e perpendiculares à rua de Graça porque são, às vezes, quarteirões fechados que têm vários
restaurantes. Rodei por um bom tempo, parei em uma cafeteria e resolvi olhar meu caminho para o museu do Chocólatra e do Picasso. Outro ponto negativo do domingo: as coisas fecham mais cedo. O museu do chocolate fecha às 15h, o que me fez suspender a visita também.

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Mas ainda tinha Picasso. Olha, eu trocava 20 museus de chocolate por museus como o de Picasso. Primeiramente porque universitário não paga entrada (que normalmente custaria 11 euros) e segundo porque é um museu muito bem organizado cronologicamente, o que faz dele um dos melhores museus em que já estive. A exposição do museu é distribuída de tal forma que você consegue ver a evolução do traço dele e a mudança de humor e de estilo ao longo dos anos. Para mim, o melhor traço em obras de arte é o grosso e rápido, sem precisão, mas que forma uma figura no fim das contas. Picasso é assim. É impressionante o traço firme mas “aleatório” que ele tinha (me lembrou Van Gogh).

A exposição mostra desde autorretratos a sketches de lápis, pinturas em tons azulados melancólicos, influência do naturalismo de Michelangelo com o toque único cubista. A representação realmente cubista (que é o que faz Picasso ser conhecido – quem não conhece Guerníca?) está presente na última etapa da exposição. É a interpretação de Picasso da tela de Velasquez (Las Meninas), a tão famosa metalinguagem e expressão barroca como “arte livre”. É impressionante a expressão “exagerada” que Picasso dá às personagens da tela e consegue transmitir exatamente o que a tela original retrata com sutileza. Sugiro que leve uma foto de las Meninas para comparar os trabalhos.

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Posso dizer que este foi um dos quadros de que mais gostei. O painel explicava que, por causa da influência catacônica de Michelangelo naquela época, Picasso introduziu um pouco de naturalismo em sua pintura, mas continuou com um toque leve de cubismo. Essa tela mostra exatamente isto: os traços firmes que delineiam o rosto, mas os cubos que preenchem o corpo.

Depois do melhor museu que já fui, voltei ao hostel para descansar um pouco e tomar banho (tente se programar para tomar banho em horários que provavelmente já terão limpado o banheiro de manhã e quando ninguém ainda tomou banho).

Depois segui para o estádio do Barcelona. Muuuito bonito, gigante, mas não entrei. Se não me engano, são 18 euros para entrar e achei que não compensava. Mas vai do gosto de cada um!

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De volta ao Hostel, entro no quarto e – tcharãm! – lá estão os brasileiros. Brasileiros juntos na Europa é pedir para fazer festa. Foi isso que aconteceu. Eram um casal de irmãos. Quando encontramos umas escocesas, a noite estava feita. Sei que fui dormir às 5h da manhã, sabendo que no outro dia tinha que levantar às 9h no máximo, porque a Basílica Sagrada Família me esperava.2014-08-21 12.54.20

PS: este dia andei bastante (porém não tanto quanto no segundo dia). De qualquer forma, a expressão de “nossa” continuou no meu rosto quando olhei esta imagem:

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Barcelona para mochileiros (Dia 2)

Por Bruno Bosi

Como estava bem cansado, me dei o luxo de dormir até um pouco mais tarde. Depois de levantar, resolvi tomar café no mercado La Boquiera. MEU DEUS, tomem sempre café lá. É incrível: frutas frescas, suco variados, comidas de tudo quanto é jeito. Porém não é barato, então não se empolga ao entrar no mercado porque há várias barracas que vendem os mesmos produtos. A dica é ir andando até o fim do mercado, onde os produtos são quase 25% mais baratos.

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Como levantei mais tarde e fiquei entusiasmado com o mercado (rodei cada centímetro gastando quase 2 horas lá), almocei por lá mesmo. Os melhores frutos do mar que já comi! Não é (muito) caro e vale cada centavo – paguei em torno de 10 euros (tome a famosa sangria junto do calamari).

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O que mais me impressionou no mercado foi como as frutas e frutos do mar eram frescos (alguns ainda vivos). Dica: se for vegetariano, nunca entre neste mercado. Tem, além disso tudo, presuntos, azeite, sal, azeitona e outras “especiarias” para vender. É de encher os olhos.

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Depois do mercado, resolvi ir para a praia (La Barceloneta), que é um pouco distante do hostel (uns 7 km, acho). Sugiro que ande pelo menos uma parte porque é muito bonito. Depois de andar um bocado, aluguei um longboard e fui passeando até a praia mediterrânea:

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A praia é bizarra: a areia não é nada parecida com a brasileira. De qualquer jeito foi bem bom. Só não se assustem com a galera pelada: nudismo lá é mais do que normal.

Hora de voltar pro hostel, descansar um pouco e sair de novo para o Parc Güell. O parque é uma das famosas obras do arquiteto Antoni Gaudí, que buscou inspiração em todas as suas obras no movimento da natureza (ou seja, nada de linhas e cantos). O lugar é muito bonito, mas é preciso comprar ingresso para entrar (para variar) na parte mais interessante do parque. Comece pelo mirante, pois a vista é linda e você consegue ver as obras de Gaudí de longe. De novo, aproveite o pôr do sol. Não se esqueça de reservar o horário de entrada no parque pela internet, primeiro porque é mais barato (7 euros na internet e 8 diretamente no parque) e segundo pois não estará sujeito à indisponibilidade de ingressos.

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Para falar a verdade, quando entrei na parte exclusiva de ingresso não fiquei tão surpreso. São incríveis os mosaicos de Gaudi e é imensurável o tamanho do trabalho que ele teve para fazer cada metro de parede e escultura. Mas não me encheu os olhos. Gosto próprio. Fim de turismo, voltei pro hostel, devo dizer, decepcionado.

Chegando no hostel era hora de achar algo para fazer. E a maior vantagem de ficar em hostel quando você está sozinho é a socialização: 10 minutos no hall e arranjei a companhia de uns italianos e umas francesas para sair. Depois já viu, né? Bebeu, dormiu.

imageNeste dia, ao todo, andei 26 quilômetros com bastante prazer. A propósito, sempre meço a quilometragem pelo aplicativo S Health, que já vem preinstalado no Galaxy S4. Aconselho a todos que têm Galaxy com este aplicativo a usufruirem a sensação de “nossa, andei mesmo tudo isto?”.

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Barcelona para mochileiros (Dia 1)

Por Bruno Bosi*

20140726_123931Fellipe me disponibilizou o espaço dele para contar um pouco da história das minhas viagens para vocês. Fiquei 4 dias em Barcelona e vou contar um pouco do que eu percebi e vivi lá. Algumas dicas também. Espero que gostem.

Estava sem expectativa alguma de ir para lá. Eu tinha que escolher entre Roma e Barcelona. Roma é Roma, dispensa qualquer tipo de explicação, mas o dinheiro estava curto e Barcelona era quase 50% mais barato. Então, vamos para Barcelona! Foi meu último desvio de rota do meu intercâmbio na Inglaterra – e valeu cada centavo.

Estava em Bournemouth, cidade em que estava morando na Inglaterra, e peguei um avião da polêmica Ryanair. O avião atrasou um pouco mais de uma hora e cheguei em Girona (um aeroporto a 45 minutos de Barcelona).

20140725_214128A capital da Cataluña é uma cidade bem difícil de andar. Aconselho que deixe o seu Google Maps aberto com o endereço do hostel registrado. Levei uns 30 minutos caminhando até meu albergue. Depois do Check-in, arrumei minhas coisas e fiz compras no supermercado.

Ideal Youth Hostel ficava bem perto da rua principal de Barcelona – La Rambla; e de todos os hostels que já fiquei, este foi o melhor deles. Com estrutura e design totalmente jovial, o hostel tinha WiFi grátis, era limpo e os quartos eram OK (não tem como um quarto de hostel ser perfeito). Superou minha expectativa e o preço era bem acessível. A localização do hostel é realmente muito boa. A menos de um quarteirão tem um KFC e um McDonald’s, a 5 minutos o Mercado la Boquiera e a 10 minutos um supermercado.

Corri então para comprar água, suco e um biscoito (dinheiro curto e muuuuito calor). Dica: ande sempre com água na mochila – Barcelona é incrivelmente quente. O castelo

Depois disso tudo, resolvi fazer o programa que talvez estaria cheio no fim de semana e que o pôr do sol ajudaria a vista. Acertei em cheio. Fui ao Montijuïc, um parque em uma das montanhas de Barcelona. Aconselho que sempre usem o metrô, não é tão caro e o passe M-10 ajuda a economizar (você tem direito a 10 passagens, que podem ser usadas por mais de uma pessoa). Porém, as informações do metrô não são das melhores. Fiquem espertos.

Chegando lá você pode escolher subir de teleférico (9 euros), ônibus ou a pé. Fui a pé e não me arrependi. A subida é bem íngreme (procure os atalhos entre os morros para cortar caminho), mas a vista é muito linda. Quando chegar no Castelo, olhe todos os centímetros em volta e depois vá descendo, curtindo a vista e parando nos parques pelo caminho.

Teleférico na descida do Castelo Montïjuic

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Parei num parque um pouco depois da fundação Miró, onde tirei fotos muito bonitas. Estava bem calmo e relaxante (pare e coma nesses locais, a descida foi bem cansativa, então aproveite lugares legais para descansar).

Fonte Fundação MiroDepois disto fui em direção à tão famosa Fontana Mágica. É muito bonita e todo mundo a idolatra, mas, aqui para nós, tem lugares muuuito melhores. Sim, é uma fonte dançante com músicas pops atuais, que fica infestado de turistas. Cuidado, arranje um lugar para respirar na multidão. Fiquei lá um tempo descansando e “apreciando” turmas de jovens (mais jovens que eu) cantando e dançando com as músicas.

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Apesar de não ser o lugar mais bacana, lá tirei a foto mais bonita de toda a viagem:

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Voltei para o hostel e já era hora de tomar banho e sair para comer algo. E por falar em comida, não gaste seu dinheiro com McDonald’s, Starbucks ou KFC em Barcelona. Experimente as tapas espanholas. Uma melhor do que a outra!

Fim de dia. 14 quilômetros. E um quase-arrependimento só de lembrar que cogitei não ir a Barcelona.

*Bruno Bosi, 19 anos, é estudante de Economia e gosta muito de viajar. Passou 2 meses na Inglaterra estudando inglês e aproveitou os fins de semana para viajar pela Europa.

Quer ler mais sobre Barcelona? Veja também este post aqui!

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O que vem por aí

Cusco

Pessoal, quero ressuscitar O Mochilão de verdade. Por isso, estou trazendo algumas novidades:

Bruno Boni

Bruno Bosi, nosso primeiro convidado!

O Mochilão vai ter autores convidados!

Nos próximos dias, um leitor do blog vai contar relatos de sua passagem pela Europa e trazer mais detalhes de Barcelona, além do que já contei em outros posts. E você, quer escrever um post e ajudar outros mochileiros com histórias de locais que você curtiu? Deixe aqui um comentário com a sua ideia que a gente pode avaliar a melhor forma. Você só precisa gostar de escrever, saber as normas básicas da gramática e da ortografia e adorar viajar!

 

Mais lugares para conhecer

Ibitipoca

Nesses meses sem postar, não deixei de viajar. Por isso, minha missão é contar muito mais sobre lugares como Cusco, Machu Picchu e Arequipa (Peru), Cabo Polônio (Uruguai), o Parque Estadual de Ibitipoca, em MG, e a subida do Pico da Bandeira, na divisa dos estados de Minas e Espírito Santo. Vamo? \o/

Pico da Neblina

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Quanto custa fazer um mochilão?

Dinheiro do mundo

 

Essa é a pergunta que mais recebo aqui nos comentários do blog. Com pequenas variações, mas sempre em torno desse fator que infelizmente ainda é o que faz o mundo girar: o dinheiro.

“Quanto custa um mochilão de um mês pela Europa?”

“Quanto custa estudar inglês na Inglaterra?”

“Quanto custa dar a volta ao mundo?”

Explico por que essa é uma pergunta difícil de responder:

Depende do seu perfil

Você dividiria quarto com mais 23 pessoas de todos os sexos, religiões, culturas, etnias, costumes e – muito importante – cheiros? Se você estiver disposto a isso, o preço do quarto do hostel vai baixar. Se você prefere um hotel na frente do ponto turístico mais badalado da cidade, pode multiplicar a grana de hospedagem por 10 (sem exagero).

Você comeria feito um urso polar no café da manhã pra economizar com comida durante o dia, sem medo dos olhares assustados dos coleguinhas? Toparia levar vodka escondida em saquinhos de sacolé/chup-chup na roupa íntima pra balada? Isso vai te ajudar a economizar!

Na visita a Paris, você faz questão de subir no topo da Torre Eiffel? Acha que uma visita a Nova York não é a mesma sem uma tarde de compras na Apple Store e uma noite no circuito ds musicais da Broadway? Inclua esses gastos no seu planejamento. Se prefere desbravar a cidade real, já pode aproveitar (as peças off-broadway muitas vezes incluem o sucesso de amanha em NYC, por exemplo).

Depende do seu roteiro

Paris, Londres e San Francisco são mais caras que Roma e Barcelona, que são mais caras que Madri e Lisboa, que são absurdamente mais caras que o <3 Sudeste Asiático <3. Tenha isso em mente e procure saber o custo médio da hospedagem (HostelWorld) e também das atrações e refeições (Trip Advisor), E gosto é que nem bunda, né galera? Fico sem saber o que responder quando me pedem dicas de qual lugar visitar, porque a pessoa pode odiar o que eu mais gostei (e vice-versa).

Depende de fatores externos

O planejamento de um mochilão vai depender muito do câmbio, do mercado de aviação e do contexto político e econômico da região que você vai visitar. Quando eu comprei a passagem RTW, com o dólar a R$ 1,70, me custou $ 6.500 (mais ou menos US$ 3.800). Outro dia fiz a simulação com um roteiro parecido e deu R$ 11.700 (com o dólar a R$ 2,30, mais ou menos US$ 5.000). Com a crise na Argentina, está tudo absurdamente barato por lá – é uma ótima opção pra quem quer mochilar com pouca grana e ainda não está com o inglês afiado, por exemplo.

 

Obs.: Quero aproveitar para pedir desculpas pela ausência. Meu último post, ironicamente entitulado “O Mochilão não morreu”, precedeu um ano e meio de hibernação. Mas não morreu mesmo, viu? :P

 

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O Mochilão não morreu!

Ainda que novos posts não tenham aparecido por aqui já há algum tempo, gostaria de informar a todos os visitantes (mais de 200 por dia, mesmo sem atualização) que o blog não morreu! O trabalho tem me tomado bastante tempo, mas continuo a responder a todos os comentários e dúvidas que costumam surgir por aqui.

Por isso, gostaria de ressaltar algumas informações:

1) Quem tiver alguma pergunta, dúvida ou conselho sobre um destino específico pode perguntar pela caixinha de comentários, mas antes é legal que os comentários do post sejam lidos para descobrir se sua dúvida não foi respondida anteriormente. Como vocês já devem ter percebido, nenhum comentário fica sem resposta. Lembre-se que sua dúvida pode ser a de outro mochileiro, portanto é melhor perguntar aqui que pelo Facebook! :)

Ah, uma dica beeem importante: não esqueça de voltar ao blog em alguns dias para ver a resposta!

2) Quem quiser entrar em contato para conversar, me conhecer melhor, etc., pode me seguir no Twitter. Minha arroba é @fellipefaria_!

3) Estou pensando em fazer alguns posts sobre Porto Alegre e Florianópolis, cidades em que tenho vivido por conta do trabalho. Talvez seja até bom até pra mim, porque assim dá pra conhecer beeeem tudo o que esses destinos oferecem.

4) Já estou com algumas viagens internacionais planejadas para este ano, desta vez aqui por perto, na América Latina. Aguardem posts quentinhos sobre alguns dos nossos hermanos!

5) Dois grandes amigos percorreram Bolívia, Chile e Peru num incrível mochilão de um mês e prepararam um vídeo sensacional com registros da viagem. Acho que tem tudo a ver com o blog e por isso gostaria de dividir a experiência do Daniel e do Rafael com todos vocês!

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De volta ao Brasil

Chegou a hora de contar o que vi do mundo para os amigos que acompanharam meu projeto mais ousado. Afinal, O Mochilão foi parte importante das alegrias que a volta ao mundo me proporcionou. Em média, 200 visitantes acessam este espaço todos os dias – e me deixa feliz saber que muita gente esperava por este post, em que vou contar o que aconteceu desde que a última aeronave pousou no Galeão em fevereiro de 2012. Apesar da expectativa (e até das cobranças) de alguns leitores, tenham certeza: era eu o maior interessado em dividir as agonias do retorno e contar o que ficou de mais importante nesta jornada. Ainda que muitos bons livros terminem sem final, eu não poderia deixar o desfecho de uma história tão pessoal por conta da imaginação de vocês.

Em Nova York, aprendi que é facinho conquistar alguns minutos de fama na Times Square. Difícil é permanecer no topo

Na Chinatown de San Francisco ouvi falar pela primeira vez do Falun Dafa, uma prática de cultivo da mente e do corpo punida com morte e tortura pelo governo chinês

O regresso foi planejado e alguns efeitos de tantos dias longe do Brasil já eram previstos. Para quem está há algum tempo longe das terras tupiniquins e está pensando em voltar, sugiro a leitura desta matéria da Folha, bastante reveladora. Mas imaginar é diferente de viver. Por isso, é inegável que a adaptação ao ponto de retorno foi provavelmente a etapa mais difícil desde que comecei a rodar o mundo.

Depois de uma viagem como essa, o autoconhecimento exige que algumas arestas sejam aparadas nas relações com o amigos e a família. O processo inicialmente é difícil, mas paciência, sinceridade e afeto são importantes nessa hora: é possível até que as relações melhorem (comigo deu certo). Outra dica importante: Ninguém merece gente monotemática ou que só fala de si mesmo – por isso, só mostro fotos quando alguém pede para ver e só conto histórias da viagem se alguém pede para ouvir. É até melhor, porque não falta gente para enxergar como arrogância a nostalgia das histórias e dos amigos que ficaram espalhados pelo mundo.

Descobri que Hong Kong não é só economia e confusão: o Tian Than Buddha, maior buda sentado do mundo, é a atração mais fascinante do local

Em Macau, percebi que não basta ser uma ex-colônia portuguesa para que seus habitantes falem português. E também que é possível economizar espaço construindo a rampa no meio da escadaria

Em Singapura, entendi como disciplina, educação e inovação podem erguer um país e por que este foi o local escolhido por Eduardo Saverin para viver

Uma das principais dificuldades é tolerar de novo o “jeitinho brasileiro”. O que era facilmente ignorado antes de conhecer o mundo passa a ser incompreensível. Patrimônio histórico pichado, pessoas jogando lixo na rua e entupindo os rios com toda a sorte de tralha, a corrupção escancarada do trocado para a “cervejinha” do guarda de trânsito aos milhões desviados dos cofres públicos… tudo isso é um baque para quem viu lugares em que filas são respeitadas, as ruas são limpas e respeitar os limites é a regra, não a exceção.

Ao mesmo tempo, também é possível parar de reclamar do que parecia normal ou mesmo ruim: os ônibus intermunicipais no Brasil são confortáveis e quase sempre pontuais, um restaurante bem simplezinho por aqui serve comida muito mais gostosa que a maioria dos pubs ingleses, (quase) todo mundo toma banho todos os dias e nosso trânsito até que é tolerável se comparado a alguns pandemônios mundo afora.

A Tailândia encheu meus olhos, minhas papilas gustativas e minha cabeça de boas lembranças – e me provou que um país não precisa ser caro para dar saudade

No Camboja entendi por que a Angelina Jolie adota tantas crianças mundo afora e que o Turismo pode ajudar a reconstruir um país

Procurar emprego é dureza, principalmente porque idealizamos demais o mercado de trabalho. É de se imaginar que uma experiência que tanto nos enriquece e transforma será extremamente valorizada pelos recrutadores, mas infelizmente é muito mais comum ouvir frases como  “você largou o emprego para passear?” ou “hummm, um semestre longe do mercado”.

Por sorte, algumas companhias sabem que experiências assim valorizam o perfil profissional e revelam atributos como flexibilidade, capacidade de planejamento e habilidades cognitivas. Recebi algumas propostas, algumas delas interessantes, mas o que me encheu os olhos de verdade foi o processo seletivo para trainees do Grupo RBS, um dos maiores conglomerados de comunicação do país.

Eram mais de 12 mil candidatos e apenas 10 vagas. Na semana passada recebi a notícia: eu fui um dos aprovados! Tenho certeza de que o projeto da viagem e a construção deste blog, sempre comentados nas diversas etapas da seleção, foram parte significativa na conquista da vaga. Para quem tiver curiosidade, o vídeo de apresentação abaixo foi utilizado como pré-tarefa em algumas fases do processo e o último minuto mostra algumas das imagens da volta ao mundo:

A Jordânia me mostrou que às vezes é preciso fugir da multidão para entender as pessoas

Israel me fez pensar em como a espiritualidade é importante: Para pregar a solidariedade, consegue aproximar todos nós. Quando ensina a intolerância, pode justificar desatinos

Na Turquia, o hostel vazio me ensinou que sem amigos ou companhia interessante nem toda a beleza do Bósforo consegue te empolgar por muito tempo

Foram 150 dias de liberdade. A cada novo desembarque, levava junto com a mochila apenas a certeza de que as pessoas daquele lugar me ensinariam novas formas de ver e lidar com a vida. Nos cinco meses em que corri (às vezes literalmente) o mundo, consegui realizar muitas metas sonhadas e contadas desde o primeiro post deste blog – olhando para trás, é até engraçado rever algumas das estratégias que eu vislumbrava para rodar o planeta.

América, Ásia, Oriente Médio e Europa foram pinçadas neste roteiro. Conheci lugares embasbacantes, pessoas inspiradoras, sabores impensáveis e vivi momentos memoráveis, tudo ao tempo certo. Vi que o mundo é muito grande, que nem tudo deve ser conhecido e que cada um tem um roteiro próprio –  na vida, no trabalho, nas viagens. O que é bom para mim pode não servir para você, mas as lições que aprendi podem te ensinar um pouquinho. Hoje tenho certeza de que valeu a pena e que as poucas frustrações também serviram de lição e oportunidade para novas experiências.

Também entendi que o brasileiro ainda é um povo muito vaidoso. Muita gente ainda escolhe o destino turístico com base na sugestão da moça da agência de viagens e no folheto que ela entregou, já pensando em como o álbum no Facebook vai bombar. Outros países  valorizam sim os recém-formados que trabalham 20 horas por dia, os self-made men, as celebridades – assim como nós! Mas lá também são respeitados aqueles que largam tudo para entender como gira este mundo, os europeus que trabalham no balcão de um hostel para aprender outras línguas, os que servem drinks num bar em Singapura para conseguir fazer o estágio na companhia financeira durante o dia, os australianos que cobrem a cara de tinta fluorescente para curtir a Full Moon Party como se não houvesse amanhã, as famílias que viajam com as crianças por cidadelas da Ásia para ensinar desde cedo como este mundo é grande e repleto de beleza.

A Espanha me fez ter a certeza de que portunhol não basta para viver direito na terra das touradas – e de que cortar o cabelo em outro país é sempre uma aventura

A Itália provou que é forte concorrente do Brasil na disputa pela melhor comida do mundo, construiu e reforçou laços de amizade e proporcionou um Natal mais feliz do que um mochileiro solitário jamais poderia imaginar

Estas palavras encerram um ciclo importante. Não apenas do blog, mas principalmente na minha vida. Aos 25 anos, quando decidi botar o pé na estrada, imaginava que viveria bons momentos mundo afora, mas não poderia prever tantas manifestações de apoio e carinho – muitas delas vieram de desconhecidos, graças a este blog, uma ferramenta que se mostrou tão singela e eficiente.

Este post me deu a oportunidade de rever tudo que vivi no último ano: as angústias, os planos, a felicidade de ver dando certo. E é por isso que aguardava o momento certo para escrevê-lo. Hoje eu me preparo para novas mudanças: em julho sigo para Porto Alegre, onde a oportunidade profissional que vinha esperando há tanto tempo finalmente vai virar realidade. Aproveito para agradecer a cada um que passou por aqui, aos amigos que mesmo à distância se mantiveram próximos, aos amigos que conheci mundo afora, a todos que fizeram a diferença e deixaram um comentário.

É fato: Jamais voltarei a ver a maioria das pessoas que conheci neste giro pelo planeta. Não por falta de vontade, claro! Mas sei que tempo, distância, dinheiro e a busca pelo novo são fatores que afastam os amigos de viagem, fragmentados pelos tantos territórios deste mundão.

Muitas dessas pessoas nos marcam profundamente e expandem nossos limites, rompendo barreiras que nem percebíamos. Muitos preconceitos caem por terra e alguns poucos, infelizmente, nascem antes que nos demos conta. Outras, cujos defeitos são as características que mais saltam aos olhos, nos ensinam a evitar a maneira errada de se relacionar com o mundo.

As músicas, as fotos e a Internet estão aí para nos aproximar e deixar que as lembranças não se percam.

Confirmei que nem só de dias nublados vive a Inglaterra e que a convivência com brasileiros no exterior não impede o aprendizado, mas multiplica a diversão

A França me mostrou que não importa quanto você tenha visto do mundo. Ele sempre vai dar um jeito de te surpreender e mostrar que é mais bonito do que você jamais poderia imaginar

Para cerrar as cortinas, O Mochilão divide com vocês uma última história. Christopher McCandless, o aventureiro que inspirou o livro e o filme “Na natureza selvagem”, deixou uma mensagem inspiradora antes de partir: Happiness is only real when shared. Por isso, encerro as memórias desta aventura com a imagem abaixo, registrada na parede de uma lojinha de Roma enquanto circulava por aquelas ruelas e pensava em tudo que havia vivido nos últimos meses.

“A felicidade só é real quando compartilhada”. A você, que me acompanhou nesta jornada, obrigado pela oportunidade de dividir e tornar eternos os momentos mais felizes da minha vida!

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