Antes de admitir que Paris me pegou de jeito, preciso confessar que subestimei a capital francesa. A última cidade a ser descoberta nesta jornada é uma velha conhecida de quase todo mundo que tem acesso aos meios de comunicação, graças às inúmeras referências que foram criadas para que os cidadãos espalhados pelo globo se apaixonassem pela Cidade-Luz antes mesmo de visitá-la.
Boa parte da sedução parisiense vem do protagonismo imposto pelas figuras que fizeram da história francesa uma amostra relevante da trajetória da civilização ocidental nos últimos séculos. Em meio a guerras e revoluções, personagens antológicos como Napoleão e Maria Antonieta se tornaram tão icônicos quanto os personagens de comédias românticas que sublinham o final feliz com um beijo em frente à Torre Eiffel iluminada.
Meu desinteresse inicial por Paris era certamente relacionado a alguns estereótipos – que se provaram equivocados, cabe ressaltar -, como a suposta antipatia dos franceses e a superficialidade que eu imaginava espalhada por toda a parte.
A primeira hipótese caiu por terra antes mesmo que eu desembarcasse na estação rodoviária de Gallieni. Afinal, conheci muitos franceses mundo afora ao longo dos últimos meses – e todos eles eram sociáveis, agradáveis, divertidos (alguns até tomavam banho diariamente, veja só!). Alguns desses amigos inclusive integram aquela seleta lista de pessoas com quem mantenho contato apesar da distância. Além disso, eu já sabia que a maior causa de antipatia dos nativos era uma abordagem em inglês – britânicos e franceses têm uma rivalidade histórica, motivo pelo qual o pessoal daqui faz questão de demonstrar o orgulho pela língua e pelos feitos da nação.
Aos turistas, resta aceitar esse patriotismo (por que não tentar entender esse amor pelo français e colocar em prática um pouquinho do nosso apreço pela inculta e bela língua portuguesa?). Por sorte, os dois semestres cursados de francês anos atrás foram de ajuda essencial nesse momento, seja para perguntar a localização de um destino qualquer (Où est la Tour Eiffel?) ou para causar uma boa impressão num estabelecimento comercial (Bonjour, Madame!). É claro que houve muitas enroladas com meu francês très bizarre, como quando precisei imitar o ronco de um porco para explicar que a quiche que eu queria na vitrine era a de bacon, provocando gargalhadas nas francesas que estavam do lado de lá do balcão (só depois a moça me explicou que o nome da famosa iguaria era Quiche Lorraine).
Ademais, descobri que o encantamento provocado por Paris é genuíno. O primeiro contato de perto com o colosso que é a Torre Eiffel emociona e surpreende de verdade, tanto quanto a descoberta do Tesouro de Petra ou da Fontana di Trevi. A estrutura de ferro, criada inicialmente como uma estrutura de design sem função além da estética, é muito mais alta do que eu e a maioria das pessoas imaginamos. E a mesma sensação ressurge com a primeira visão da Pirâmide do Louvre, da Basílica de Sacre-Coeur e do imponente Arco do Triunfo ao fundo dos faróis dos carros que cruzam a avenida Champs-Elysées. Paris é realmente arrebatadora.

O Free Tour de Paris faz um panorama rápido das principais atrações da cidade - só que o guia não gostou muito quando viu nossa gorjeta de 3 euros

Na avenida Champs-Elysées, artistas de rua se esforçam para ganhar um trocado num dos metros quadrados mais caros do mundo

No Arco do Triunfo, a chama eterna em homenagem ao Soldado Desconhecido - ela só foi apagada quando um mexicano bêbado urinou sobre o fogo na Copa de 1998 (ele foi deportado, claro)

Se a antena de rádio não tivesse sido instalada no topo da torre, é provável que ela tivesse sido demolida por falta de função

Lá dentro, mesmo com os pedidos para que o flash seja desligado, muitos turistas sem-noção disparam luzes para todo o lado

A arquitetura ousada do Centre Pompidou destaca mais um dos centros de difusão de arte e cultura na capital francesa
A Basílica de Sacre-Coeur fica no alto de Montmartre, a região que mais me encantou na capital francesa. Erguida no topo de uma colina de onde é possível ver o charmoso horizonte de Paris, a bela igreja atrai centenas de visitantes, que também se impressionam com a beleza e a originalidade do caminho para acessá-la, seja pela escadaria adornada por belos jardins ou pelo Funicular, um trenzinho-elevador que transporta turistas e fiéis até a basílica sem a necessidade de vencer os degraus.
Montmartre também é o epicentro da boemia parisiense – aqui funciona o centenário cabaré Moulin Rouge, ladeado por dezenas de estabelecimentos de fama duvidosa no Distrito da Luz Vermelha da cidade. Mas para saber como é la vie en rose de verdade, o melhor jeito é caminhar sem rumo certo pelas ladeiras do bairro. Sugiro que você assista o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” antes de visitar Paris para ter uma compreensão mais sensível deste canto pouco explorado pelos turistas típicos. E uma dica imperdível é acessar o site Conexão Paris, que criou um ótimo roteiro para quem quer conhecer a região.
O Museu do Louvre, como tudo em Paris, guarda séculos de história, arte e beleza. Aos poucos, pitadas de modernidade vão acrescentando um ar mais jovial em busca de uma aproximação com o público mais jovem. As próprias Pirâmides de vidro, que hoje são um ícone do museu e da própria cidade, foram inauguradas em 1989 sob uma saraivada de críticas dos mais conservadores.
O ingresso normal custa 10 euros (informação atualizada sempre no site oficial). A tradicional dica para economizar é aproveitar os dias de entrada grátis. Os primeiros domingos de cada mês são gratuitos para todo mundo – chegue cedo, porque o prédio estará obviamente lotadíssimo. Já nas noites de sexta-feira (18h às 22h) quem tem 25 anos ou menos não paga nada para entrar e enfrenta uma concorrência bem menor. É claro que foi numa noite dessas que aproveitei para percorrer os corredores infinitos do Louvre.
Adianto que a coleção é assustadoramente gigantesca. É possível passar um dia inteiro no museu sem conseguir olhar para todas as obras – esteja preparado física e psicologicamente (dizem que um turista japonês desmaiou de cansaço depois de muitas horas andando e observando telas e esculturas). Além da brochura gratuita disponível nos quiosques de informação, que indicam a localização das obras mais importantes, o site Conexão Paris criou um ótimo roteiro para quem tem pouco tempo e quer ir direto ao acervo mais precioso do Louvre.
Pintura mais famosa do mundo, a Mona Lisa de Da Vinci é sem dúvida a obra mais disputada do museu. Alguns visitantes acabam se frustrando e reclamam que a tela é muito pequena – cabe ressaltar que La Gioconda se tornou célebre por uma série de inovações trazidas ao movimento artístico da época, o Renascimento Italiano. Por isso, chegue à sala da Mona Lisa sabendo que este é o quadro mais valioso do planeta porque é uma grande pintura – e não uma pintura grande!

A Pont des Arts, que atravessa o Rio Sena do Institute de France ao Museu do Louvre, é palco para muitas declarações de amor

Nas grades da ponte, casais apaixonados prendem cadeados com seus nomes e lançam as chaves nas águas do Sena em busca de um enlace duradouro

As pirâmides do Louvre, que provocaram polêmica em seus primeiros anos e hoje são fonte de admiração

Não é só no Brasil que tem bagunça: este banner ficou horas dependurado e nenhum funcionário foi lá tomar uma atitude

A estátua de Hemafrodite é a mais divertida: olhando deste lado, parece uma bela mulher repousando...

Esculturas seculares como esta, da mulher alada sobre a proa de uma embarcação, estão espalhadas por todo o prédio

Esta panorâmica mostra o tumulto dos visitantes em volta da obra-prima de Da Vinci e a grande quantidade de pinturas na mesma sala deixadas de lado

A poucos metros da sala da Mona Lisa, uma outra obra do próprio Da Vinci é ironicamente ignorada - e olha que essa é famosinha!

Esta pintura retrata uma mulher manipulando o mamilo da irmã (!): dizem que é um gesto que simboliza fertilidade
Eu não queria retornar ao Brasil sem ver neve. Depois de cinco meses viajando pelo mundo todo e vendo todo tipo de paisagem, clima e vegetação, me parecia impensável voltar para casa com essa frustração, tipicamente brasileira. Por isso, logo que cheguei a Paris (num frio que chegou a bater -9ºC) comecei a procurar um destino ainda mais gelado para passar um ou dois dias. Mas em cima da hora, até os ônibus escapavam ao meu orçamento. O transporte para os Alpes Franceses até ficava em conta, mas o preço da hospedagem inviabilizava qualquer fio de esperança do singelo sonho de ver floquinhos caindo do céu.
Essa introdução serve para explicar minha excitação na noite em que saí do Louvre. Naquele momento, Paris parecia ainda mais gelada. Mesmo assim, algo me dizia que eu deveria continuar batendo perna pelas ruas de cidade e que ainda era cedo para tomar o metrô para o hostel. Enquanto caminhava, olhando para os faróis dos carros que ajudavam a iluminar a noite de Paris, percebi que alguns pontinhos começavam a surgir no contraste com as luzes dos postes e dos automóveis. Chuva não era!
E foi assim mesmo, a dois ou três dias de encerrar uma volta ao mundo, que uma incrível ajudinha dos céus me proporcionou o primeiro e emocionante contato com a neve, uma simples manifestação da natureza que consegue mexer tanto com nossas expectativas e emoções. Muita gente chega a chorar quando vê os pontinhos (que parecem penas minúsculas de um passarinho) bailando pelos céus pela primeira vez. E para quem já está acostumado com a neve, deve ser estranho ver a felicidade de um maluco olhando boquiaberto para os céus e tirando fotos dos alvos cristaletes que caem na manga do casaco.
Paris, que ja havia me conquistado, conseguiu renovar nossa paixão quando se vestiu de branco. A cidade fica completamente diferente – e pouca coisa é tão divertida quanto fazer uma bola de neve com o gelo acumulado na superfície dos carros estacionados.

As baixíssimas temperaturas incomodavam um pouquinho, mas a beleza do céu compensava qualquer friozinho

Nesta cidade tudo é coisa fina: os boleiros batem pelada nos gramados públicos usando golzinhos em miniatura e cones para definir os limites do campo

Exemplo de uma cidade civilizada: as cadeiras são deixadas ao ar livre para que todos possam relaxar em frente à fonte. Ah, se fosse no Brasil...
Como sempre, os brasileiros estavam por toda a parte. E no hostel não foi diferente: Gustavo, Dani, Leonardo e Larissa foram os últimos amigos com quem compartilhei momentos inesquecíveis nesta volta ao mundo. Tirar fotos malucas em frente à Torre Eiffel, assistir a final do SuperBowl ou beber champagne de verdade: algumas maneiras formidáveis de dizer Au Revoir.
Uma hora, tinha que terminar. De volta ao Brasil, é hora de repensar cada lugar, cada pessoa, cada lição. E assim O Mochilão encerra sua primeira aventura, mas com uma boa notícia para os leitores do blog: ele não vai morrer. Tem muita gente mochilando por aí e se encantando por esse nosso mundo – que é grande demais para uma vida só. Não desafivelem os cintos. Vem mais história por aí…















































































































































































































